Entrevista: “Continuaremos a fazer-nos ouvir nas ruas e nas paredes da cidade”

Posted by redefeminista - 9 Novembro 2010

Redacçom/ Conversamos com Maria Rosendo, poeta e participante da Rede Feminista Galega, acerca da visita do Papa Bento XVI e as diversas reacçons de protesto.

Que é a Rede Feminista Galega?
A Rede Feminista Galega (RFG) nasce com o objectivo de ser um ponto de encontro de todos os colectivos e mulheres feministas do país. Tentamos convergir num lugar comum: o da luita contra o patriarcado, ao que, ainda hoje, nos vemos submetidas, tanto por pessoas, como por instituiçons encarregadas de perpetuar o modelo hegemônico, altamente machista.

Já levais todo o ano com umha campanha de denúncia da moral da Igreja católica, por que começou esta campanha contra a Igreja? Ides continuar com ela?

“A igreja contra as mulheres, as mulheres contra a igreja” é o lema sob o qual se englobam todas as acçoms que desde a RFG se tenhem feito neste ano Jacobeu 2010. A campanha faz-se necessária, já que nós entendemos que a Igreja Católica é umha das instituiçons que mais dano lhe tem feito às mulheres, proibindo-nos e castigando a liberdade sexual, a liberdade de decidir sobre os nossos corpos e subordinando-nos sistematicamente aos homens sob um rol de submissom onde tenhem lugar todo tipo de violências.

Para além, o ano Jacobeu previa-se –tal e como pudemos comprovar a posteriori- como um ano em que a cidade de Compostela ia estar completamente tomada por peregrinos, fundamentalistas católicos e líderes eclesiásticos. Isto fazia necessário termos umha resposta preparada perante esta invasom católica.
Dalgum jeito, a campanha tinha o seu ponto álgido com a visita do líder católico Bento XVI, para a que se programarom acçoms específicas ao longo das últimas semanas. Porém, o ano Jacobeu ainda nom rematou, assim que continuaremos a fazer-nos ouvir nas ruas e nas paredes da cidade.
Outro assunto no qual estamos a trabalhar é o de traduzirmos a denuncia apresentada o passado 27 de outubro a Bento XVI a distintas línguas, para fazê-la extensível a outras pessoas doutros países e que podam apresentar a denúncia no seu próprio país.

Como dis, a Campanha contra a Igreja, tivo o seu ponto álgido com a visita do Papa, como organizastes os actos que se vinherom desenvolvendo estes dias contra a sua visita?

Desde a RFG levamos semanas fazendo visível a nossa postura de total rejeitamento à visita do Papa. Convocou-se umha concentraçom para o 6 de Novembro, dia em que Bento XVI chegava a Compostela. Aliás, fixo-se umha denúncia de 20 páginas, onde se argumentavam juridicamente os delitos que se lhe imputam ao líder da Igreja Católica. Som 9 feitos imputáveis, apoiados nos artigos 607.2 de apologia do genocidio e 607 bis sobre os crimes de lesa humanidade, polos actos generalizados e sistemáticos de tortura, abusos sexuais e o seu ocultamento, apologia da misoginia e homofobia e perseguiçom por motivos políticos, étnicos, de gênero ou de orientaçom sexual.
Para além, fixemos muitas coladas de cartazes e pintadas polas ruas da cidade que forom rápida e sistematicamente retiradas, o foi umha mostra mais do silenciamento brutal por parte da administraçom local e nacional das diversas posturas de rejeitamento á visita do Papa.

Como xurde a plataforma Eu nom te espero?
A plataforma Eu nom te espero xurdiu, precisamente, para aglutinar a todos os colectivos e pessoas da cidade de Compostela e do resto do país que nom estavam de acordo com a visita do Papa, nom só polo gasto de dinheiros públicos, senom pola ideologia que se avala desde as administraçons.
A ideia era a de activar umha resposta popular. Concordamos numha série de acçoms reivindicativas ao longo de toda a a semana, do 2 ao 6 de Novembro: concentraçom e colada de cartazes, denuncia do Papa com conferência de imprensa, projecçons de documentários, manifestaçom e concentraçom final o sábado 6.

Como valorais os actos destes dias?
Desde a Rede Feminista Galega fazemos umha valoraçom mui positiva dos actos de denúncia que fixemos desde a plataforma Eu nom te espero. Pensamos que o sucesso da convocatória foi mui importante, sobre todo tendo em conta que a convocatória dos actos foi feita com mui pouco tempo. Cremos que a populaçom de Compostela demonstrou sobradamente que rejeitava esta visita e o gasto público que supunha.
Para além, nom podemos deixar de denunciar novamente a situaçom de violência que se viveu durante toda esta semana na cidade, onde os direitos e as liberdades fundamentais de moitas cidadás de Compostela estiverom constantemente vulneradas: proibiçom da liberdade de expressom (ao invisibilizar e impedirem as manifestaçons de oposiçom à visita), proibiçom da liberdade de circulaçom pola zona velha, proibiçom do direito a manifestaçom, proibiçom do direito de reuniom, etc.
Destacar a carga policial totalmente desmesurada (como sempre o som), quando já nos estavamos a retirar da (nom)manifestaçom do dia 4. Também utilizarom técnicas de intimidaçom como a identificaçom sistemática e injustificada de pessoas durante toda a semana. Desde a plataforma Eu nom te espero, esta-se a valorar a possibilidade de denunciar ao delegado do governo, Antom Louro, pola vulneraçom dos direitos fundamentais dumha parte da cidadanía de Compostela nas passadas jornadas.

O feminismo organizado tem muito que luitar, sobre todo com o crescimento do neomachismo, pensas que estám em perigo direitos que já tinhamos conquistado as mulheres organizadas?
É certo que estamos a viver um momento delicado onde há direitos fundamentais das mulheres que se estám a pôr em questom. Muitos estám em perigo, em concreto na Galiza estám a limitar o direito o aborto com a nova Lei de Familia, cujo ante-projecto já foi apresentado o passado 22 de Junho no Parlamento galego e será definitivamente aprovada em qualquer momento, sem prévio aviso. Por todo isto, acho faz-se necessária umha deconstruçom das organizaçoms feministas, um replantejamento das estruturas que as sustentam para sairmos mais fortalecidas, é imprescindível achegármonos entre as mulheres, sejam as que for as nossas condiçoms, porque o empoderamento das mulheres é a única luita possível.

[Entrevista publicada em Galiza Livre, 08/11/10.]

In:
Comments are Closed on this Post.